Home / Política / Lula venceu. A conta continua aberta

Lula venceu. A conta continua aberta

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva encerra a disputa presidencial, mas mantém em aberto a principal questão econômica do país: até quando o governo continuará adiando uma reorganização consistente das contas públicas?

O problema vai além da dificuldade política de cortar despesas. Na minha avaliação, falta ao governo disposição para enfrentar o desequilíbrio com a prioridade que ele exige. A insistência em ampliar benefícios, relativizar restrições orçamentárias e deixar o financiamento para depois transforma a política fiscal em uma fonte permanente de incerteza.

A reação imediata dos ativos brasileiros no exterior foi severa. Na manhã de 26 de outubro, o dólar implícito nos contratos futuros de real em Chicago ultrapassou R$ 5,50, enquanto o EWZ, fundo de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, caiu mais de 20% na pré-abertura.

Parte da queda refletiu o desmonte de apostas na vitória de Flávio Bolsonaro, amplificado pela menor liquidez das negociações fora do horário regular. Portanto, seria precipitado transformar a primeira reação em uma previsão definitiva para a economia. Mas seria igualmente equivocado ignorar o alerta: a continuidade do governo veio acompanhada de uma cobrança imediata por credibilidade fiscal.

O chamado pacote de bondades ajuda a dimensionar essa preocupação. Segundo levantamento da Instituição Fiscal Independente divulgado pela CNN, as medidas anunciadas mobilizam R$ 298,4 bilhões.

O governo ampliou compromissos em um contexto eleitoral sem oferecer uma explicação suficientemente detalhada e convincente sobre sua sustentação. O Ministério do Planejamento menciona remanejamentos e eventuais bloqueios no Orçamento de 2027, mas ainda há perguntas sobre quais despesas cederão espaço e quais receitas sustentarão as medidas.

Anunciar benefícios é politicamente fácil. Identificar quem financiará a conta exige escolhas que o governo tem evitado explicitar.

O mercado espera agora sinais sobre a equipe econômica, o controle das despesas e a estabilização da dívida. Minha avaliação é que uma indicação bem recebida para a Fazenda terá efeito limitado se o presidente continuar tratando o ajuste como uma concessão inconveniente. A autoridade do ministro depende do apoio político para executar decisões difíceis.

As consequências dessa resistência alcançam toda a economia. Quando a expansão das despesas compromete a confiança na trajetória da dívida, os investidores exigem juros maiores para financiar o governo. Como os títulos públicos são referência para outras operações, esse aumento contamina o custo de financiamento das empresas e das famílias.

A indústria adia a compra de máquinas. O comércio paga mais pelo capital de giro. A construção encontra menos compradores capazes de financiar imóveis. Empresas menores, com margens estreitas e poucas alternativas de crédito, enfrentam dificuldades ainda maiores.

A pressão cambial acrescenta outro problema. Um real persistentemente mais fraco encarece insumos e produtos importados, podendo alimentar a inflação. O Banco Central passa a ter menos espaço para reduzir a Selic e, conforme a intensidade do choque, pode precisar manter ou reforçar a restrição monetária.

Por isso, a alta dos juros futuros merece atenção especial. Ela não significa que uma recessão esteja determinada, mas pode antecipar um aperto das condições financeiras. Novos financiamentos ficam mais caros, projetos deixam de ser viáveis e empresários passam a preservar caixa em vez de investir e contratar.

O risco é o governo tentar compensar essa desaceleração com mais gastos, aprofundando a desconfiança que ajudou a provocá-la. O estímulo fiscal perde eficácia quando vem acompanhado de dólar pressionado, expectativas de inflação piores e juros elevados por mais tempo. Nesse cenário, o país pode terminar com crescimento baixo, inflação resistente e vulnerabilidade crescente a uma recessão.

Os próximos dois anos, 2027 e 2028, serão cruciais. Considero esse o período decisivo para demonstrar uma mudança de direção antes que o custo do endividamento e a perda de dinamismo econômico tornem o ajuste ainda mais difícil.

A deterioração também pode comprometer a sustentação política do presidente. Inflação, desemprego e perda de renda desgastam governos e reduzem a disposição do Congresso de apoiá-los.

No limite, uma crise fiscal e política pode desembocar, inclusive, em impeachment, desde que existam atos que configurem crime de responsabilidade e sejam observados os requisitos constitucionais e legais. Déficit, recessão ou impopularidade, isoladamente, não constituem fundamento suficiente. A legislação, porém, prevê crimes relacionados à violação da lei orçamentária e à realização de despesas ou operações de crédito em desacordo com a lei.

Trata-se de um risco condicionado a condutas concretas e à evolução política, não de uma consequência automática da piora econômica.

Lula recebeu um novo mandato, mas a vitória eleitoral não resolve o desequilíbrio das contas públicas. Se insistir em adiar escolhas, o governo poderá converter uma dificuldade administrável em uma crise econômica e de governabilidade.

E quem pagará primeiro será justamente a população que o discurso oficial afirma proteger: os trabalhadores e os mais pobres. Pelo crédito mais caro, pela perda de poder de compra e pela redução das oportunidades de emprego.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *